quarta-feira, 23 de junho de 2010

Soldadinho

Um texto que escrevi às sete-e-algo da manhã recentemente, no carro, na ida para a escola, quando fui atingida por um súbito boom de inspiração...


A criança sentava em um banquinho de madeira, com uma espiga de milho na qual havia encaixado quatro palitos de fósforo – dois para os braços e dois para as pernas. Um quinto palitinho de fósforo servia de fusil.

- “Vá soldadinho... Lute na guerra!
E depois volte para sua terra!
Vá soldadinho... Mas como você é lindo!” – cantarolou, fazendo com que a espiga marchasse pelo parapeito da janela. Parou-a por um momento e, olhando atentamente para uma linha de formigas que passeava pelo chão da casa, pensou por um tempo. – Mãe, o que é que rima com ‘lindo’?

Cansada, exausta, como que se arrastando de perto do fogão, a jovem mulher andou até o filho, seus cabelos brancos e rugas precoces sendo ressaltadas pela suave luz que inundava a casa pela porta, que se encontrava aberta.

Sorriu um sorriso melancólico e pôs à cabeça da criança a mão leve e miúda, os dedos ressecados passando por seus cabelos. Dirigiu-se a janela e lá se debruçou.

- Com ‘lindo’... – respondeu lentamente, com um suspiro triste, - Saindo, fugindo, partindo, desconstruindo, esvaindo... – uma única lágrima escapou de seus olhos, enquanto observava a caatinga lá fora. O vento seco lhe tocava o rosto com leveza.

- E seguindo, conseguindo, adquirindo?

Silenciosamente, a mulher se voltou ao fogão, para mexer o feijão que borbulhava.

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