Esse é um texto que escrevi há uns meses, durante meus momentos desesperadores, mas inspiradores de insônia. Andava lendo textos menos "românticos" e mais "realísticos" e, portanto, tive vontade de experimentar tipos de escrita novos. Nesse trecho, narro algo que muitas vezes nós subjugamos, mas que é importantíssimo e traz muito conteúdo interessante para aqueles que estão dispostos a experimentá-lo: o cotidiano.
O cotidiano de pessoas normais, simples, daquelas que sempre vemos na rua, paradas num ponto de ônibus ou andando até o trabalho, sobre as quais, na maior parte das vezes, nem paramos para pensar. Algo que tenho feito muito nos últimos meses é simplesmente observar essas pessoas ao meu redor, e, especialmente durante esse período de provas quando não tive tempo a sós com o papel e a caneta, imaginar como sua vida deve ser. Olho para alguém na rua, e começo a pensar... Tento adivinhar sua profissão, o que está fazendo, para onde está indo, para onde vai depois disso, se mora sozinho ou com a família, se é solteiro ou casado, se está passando por algum momento difícil em sua vida... Enfim, detalhes da vida de outros seres humanos que raramente despertam tanto interesse nos outros, mas são uma excelente matéria para ser investigada na escrita.
Luiz Henrique nada fazia que tivesse qualquer importância naquela quieta tarde de outra monótona terça-feira. Sentava na cadeira dobrável de alumínio e plástico com o jornal nas mãos, aberto no caderno de esportes. Seu dedo indicador direito repousava sobre uma palavra, seguida de um ponto final. Não queria se perder no emaranhado inesgotável de frases, pois poderia ser difícil retornar ao mesmo lugar no texto depois, tendo tirado os olhos das folhas sujas e repletas de notícias sobre coisas que mal o interessavam, ou que ele mal entendia. Sua vista se focava no pavimento, seguia atentamente um pombo que ciscava o que quer que fosse que se escondia entre os paralelepípedos brancos e pretos da rua. Luiz Henrique era assim: tudo que fosse pouco mais interessante que seu entediante trabalho como guardador de carros lhe roubava por completo a atenção, se fazia motivo de observação e reflexão profundas que, por vezes, nem ele mesmo compreendia ou queria compreender.
Uma buzina soou. Mas foi só quando o pombo abriu as asas e levantou vôo num frenesi aterrorizado que o guardador se deu conta que o carro logo à frente estava saindo de sua vaga em marcha-ré. Logo Luiz Henrique levantou, correu até o carro, jornal fechado na mão direita, o dedo ainda pressionado contra a mesma palavra. A janela desceu, e ele estendeu a mão. Duas moedas de um real caíram sobre sua palma aberta, que as levou ao bolsinho na frente do colete de guardador.
- Obrigado, - disse, e voltou à sua cadeira e abriu novamente o jornal. Focou a vista nas letras, nas sílabas, nas palavras... Tantas palavras... Era tudo muito confuso: a todo momento elas se mesclavam e se fusionavam, se confundiam, se tornavam embaçadas... O doutor havia dito que precisaria de óculos. Que óculos, que nada! Precisava era de feijão e arroz suficientes para dar de comer aos cinco filhos e à mulher. Quem tinha dinheiro de sobra era que precisava de óculos, e quem tinha tempo para mandar fazer... E tempo era dinheiro, como já diria seu pai. Seu pai... Agora velho e ranzinza, mal se recordando dos nomes de seus filhos, esquecido, confuso e perdido em seu próprio mundo imaginário, que desabava lentamente sobre ele próprio.
Pronto. Havia soltado o jornal, deixando a palavra escapar-lhe, e estava novamente perdido. "Droga, aonde foi que eu parei?". Já não se lembrava mais. Não importava, de qualquer modo. O seu turno havia acabado fazia uns cinco minutos, já era hora de voltar para casa. Poderia ter ido, a essa hora, se não fosse o irresponsável do Armando, que não chegava na hora, nunca. "Homem tem que trabalhar para sustentar a família", dizia a mãe de Luiz Henrique, antes de morrer, quando ele ainda era moço, "Homem tem que ter compromisso e ter trabalho honesto para alimentar os filhos". E era isso que ele fazia, ou tentava fazer. Já o Armando... Esse era outra história. Armando era mais novo, mas era um vagabundo, por assim dizer. Não queria nada com trabalho; entre os turnos e os talões de estacionamento passava o tempo no botequim do Seu Raimundo, bebendo e conversando com mulheres de procedência duvidosa.
Dez minutos. Levantou-se da cadeira, dobrou-a, dobrou o jornal e olhou a rua. A distância distinguiu a silhueta do outro guardador. Agora que Armando tinha chegado, ele iria embora, iria para casa, iria jantar à mesa com a família e depois sentar no velho sofá mofado com uma lata de cerveja na mão e a televisão ligada na Globo. Não perdia nunca a sua novela favorita. Nunca.
Desceu a rua, parando brevemente só para acenar e cumprimentar com um "valeu" o colega de trabalho. Com um passo cansado, dirigiu-se à entrada do metrô, jornal nas mãos e a cadeirinha de baixo do braço, parando somente no meio do caminho para observar uma criança que corria atrás dos pombos da praça, fazendo-os levantar vôo. Mais um dia de trabalho havia se passado.