Escrito meramente como um exercício de narração, um dever de casa de português. Achei o resultado satisfatório, e por isso decidi postar.

Eles estavam vindo. Vinham por mim, vinham me salvar, voando gloriosamente pelos ares a minha procura, mirando para fora das minúsculas janelinhas do avião para a vasta quantidade de água, e o minúsculo ponto de terra, seus olhos vasculhando a imensidão. Eu tinha certeza de que iriam me resgatar.
Minha aparência era como a de um ser Neandertal: os cabelos embaraçados, sujos, sem brilho, a pele cintilando com o suor inevitável, os olhos já menos humanos e meio mortos pela experiência. Havia passado, no mínimo, uma semana naquela desgraçada ilha, e estes dias haviam sido para mim mais como milênios durante os quais a vida se arrastava inutilmente, trazendo e levando consigo absolutamente nada, senão o tempo, desapressado como um caracol se esgueirando pelo galho de uma árvore, sem destino e sem pressa. Minha alma era oca, e se não fosse um único ser, um único ser que agora deveria encontrar-se preocupado na metrópole onde morava, vagando de um lado a outro a minha espera, eu já haveria morrido. Mas, como dizem alguns, e como sabem todos, o amor faz milagres, e mantém vivos mesmo aqueles que estão prestes a morrer.
Foram penosos os dias que passei naquele aglomerado de areia em meio à imensidão azul. Bebia a água acumulada nas folhas côncavas das plantas, comia o que parecesse menos desagradável – subia em árvores para pegar frutas, que eram poucas e estranhas, e matava lebres e outros pequenos mamíferos com a ajuda de uma armadilha feita de alguns galhos e fibras de coqueiro. Todo dia, à noite, acendia uma pequena fogueira e me punha a dormir ao lado dela, após cozinhar qualquer que fosse o meu jantar sobre suas labaredas aconchegantes... Eram essas chamas que mais me faziam lembrar de casa, de minha lareira quente na frente da qual gostava de sentar a tarde...
Foi provavelmente o pior período que já havia passado, tendo que tomar banho no mar salgado, sempre correndo de volta para a segurança da areia se visse qualquer coisa na água que pudesse parecer perigoso. Acordava várias vezes durante a noite, a lança mal-feita nas mãos, caso viesse a ser atacada por alguma coisa; e eu com aquele brilho selvagem nos olhos, acendendo neles algo que antes não sabia que existia em mim, antes um ser humano comum, calmo, pacato. Minhas roupas estavam imundas e rasgadas, cobertas de areia. Foi durante esses dias que me arrependi de ter, enquanto criança, brincado de qualquer coisa aventureira, na época quando tinha a inocência e a ignorância de imaginar que viver assim seria divertido...
Estavam se aproximando. Já imaginava o avião pousando, e a equipe de resgate saindo dele, triunfante, me carregando ao interior da máquina milagrosa que me traria de volta a tudo aquilo que havia perdido... Mas ao invés disso, um som estridente soou pelos ares, e, ao olhar para cima, percebi que o que plainava nos céus não era um avião, e sim um condor, sobrevoando a ilha em busca de uma presa.