sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Depressão de Fim de Ano

Dois minutos para a meia-noite, e o início de um novo ano. Adeus ano velho, feliz ano novo, para aqueles que já comemoraram a chegada de 2011, e para aqueles que ainda estão por comemorar. Todos estão certamente muito alegres neste fim de ano, animados para outro ano, um novo começo. Mas no fundo, para a maior parte de nós, este novo ano será nada mais que uma repetição do ano passado - as mesmas vitórias e os mesmos fracassos, os mesmos sonhos e a eterna insatisfação de perceber que nenhum deles se realizou. Life goes on.
Para mim, no entanto, lidar com uma imensa tristeza é quase que natural durante o ano novo. Não comemoro a data com entusiasmo nenhum, tudo que fazemos é um bom jantar, e à meia-noite faço um desejo para o próximo ano. A esse ponto do meu post, já fiz meu desejo. Mas no resto, continuo deprimida como sempre fico no último dia de todo ano. A véspera de Ano Novo é uma data de tortura sub-consciente para mim, e provavelmente sempre será. Minhas únicas memórias desta data no passado foram de ser obrigada a ficar acordada até tarde quando preferia estar dormindo para ver e ouvir os ruidosos fogos de artifício, que sempre detestei. Consigo até apreciá-los, em qualquer outro dia do ano, na televisão, e sem som, mas durante o Ano Novo, estes são quase que insuportáveis. Minha sorte este ano é que estou passando o Ano Novo em Providence, nos Estados Unidos, uma pequena cidade bem longe de quaisquer fogos. Mas mesmo assim, continuo detestando profundamente este dia. Acordo no último dia do ano já com um péssimo humor, e durmo com um humor pior ainda.
Prometo neste ano que está por vir mais postagens aqui no blog, mais prosa e poesia.
No mais, me despeço, e espero que todos tenham tido um Ano Novo melhor que qualquer um que eu já passei.

Amalia Bastos

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Um Jantar Ilustre

Bom... Faz um tempo que não posto nada aqui no blog.

Estou tendo pouco tempo para escrever, viajando por várias universidades dos Estados Unidos, mas pensei que talvez fosse interessante responder ao menos uma pergunta por semana para meus pouquíssimos leitores.

Uma das coisas que sempre me pergunto é: se eu pudesse sentar à mesa com quinze pessoas que provavelmente nunca verei em toda minha vida, quem eu escolheria? Compilei, por fim, uma lista. Eu adoraria passar uma tarde, ou até mesmo um dia inteiro, conversando com as seguintes pessoas: J.R.R. Tolkien (autor de “O Senhor dos Anéis”), William Faulkner (um dos maior autores da história, em minha humilde opinião), J.D. Salinger (outro excelente autor, mas que provavelmente não compareceria por detestar aparecer em público), William Shakespeare (que todos conhecem, claro), Charles Darwin (o ‘pai’ da evolução), Richard Dawkins (um grande cientista e ateu, que deve ter mais de 60 anos de idade agora), William Shatner (o ator de Star Trek que faz o papel do ilustre Capitão Kirk na série original), Leonard Nimoy (o genial ator que faz o papel de Spock em Star Trek / Jornada nas Estrelas - série original), Edgar Allan Poe (o autor mais mórbido, romântico e poético que o mundo já teve a honra de conhecer), Gerald Durrell (zoólogo, fundador do zoológico de New Jersey), Agatha Christie (a famosa autora dos mistérios e romances policiais adorados no mundo inteiro), Sting (vocalista da banda The Police, agora dissolvida), Tom Jobim (o grande mestre da nossa querida Bossa Nova), Chico Buarque (um intelectual e músico sem igual) e Peter Jackson (diretor dos filmes baseados nos livros de Tolkien, “O Senhor dos Anéis”, e que estará trabalhando em “O Hobbit” em breve).

Então... Por hoje é isso, mas postarei mais em breve.

Boas festas para todos!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Vida Urbana

Esse é um texto que escrevi há uns meses, durante meus momentos desesperadores, mas inspiradores de insônia. Andava lendo textos menos "românticos" e mais "realísticos" e, portanto, tive vontade de experimentar tipos de escrita novos. Nesse trecho, narro algo que muitas vezes nós subjugamos, mas que é importantíssimo e traz muito conteúdo interessante para aqueles que estão dispostos a experimentá-lo: o cotidiano.

O cotidiano de pessoas normais, simples, daquelas que sempre vemos na rua, paradas num ponto de ônibus ou andando até o trabalho, sobre as quais, na maior parte das vezes, nem paramos para pensar. Algo que tenho feito muito nos últimos meses é simplesmente observar essas pessoas ao meu redor, e, especialmente durante esse período de provas quando não tive tempo a sós com o papel e a caneta, imaginar como sua vida deve ser. Olho para alguém na rua, e começo a pensar... Tento adivinhar sua profissão, o que está fazendo, para onde está indo, para onde vai depois disso, se mora sozinho ou com a família, se é solteiro ou casado, se está passando por algum momento difícil em sua vida... Enfim, detalhes da vida de outros seres humanos que raramente despertam tanto interesse nos outros, mas são uma excelente matéria para ser investigada na escrita.


Luiz Henrique nada fazia que tivesse qualquer importância naquela quieta tarde de outra monótona terça-feira. Sentava na cadeira dobrável de alumínio e plástico com o jornal nas mãos, aberto no caderno de esportes. Seu dedo indicador direito repousava sobre uma palavra, seguida de um ponto final. Não queria se perder no emaranhado inesgotável de frases, pois poderia ser difícil retornar ao mesmo lugar no texto depois, tendo tirado os olhos das folhas sujas e repletas de notícias sobre coisas que mal o interessavam, ou que ele mal entendia. Sua vista se focava no pavimento, seguia atentamente um pombo que ciscava o que quer que fosse que se escondia entre os paralelepípedos brancos e pretos da rua. Luiz Henrique era assim: tudo que fosse pouco mais interessante que seu entediante trabalho como guardador de carros lhe roubava por completo a atenção, se fazia motivo de observação e reflexão profundas que, por vezes, nem ele mesmo compreendia ou queria compreender.

Uma buzina soou. Mas foi só quando o pombo abriu as asas e levantou vôo num frenesi aterrorizado que o guardador se deu conta que o carro logo à frente estava saindo de sua vaga em marcha-ré. Logo Luiz Henrique levantou, correu até o carro, jornal fechado na mão direita, o dedo ainda pressionado contra a mesma palavra. A janela desceu, e ele estendeu a mão. Duas moedas de um real caíram sobre sua palma aberta, que as levou ao bolsinho na frente do colete de guardador.

- Obrigado, - disse, e voltou à sua cadeira e abriu novamente o jornal. Focou a vista nas letras, nas sílabas, nas palavras... Tantas palavras... Era tudo muito confuso: a todo momento elas se mesclavam e se fusionavam, se confundiam, se tornavam embaçadas... O doutor havia dito que precisaria de óculos. Que óculos, que nada! Precisava era de feijão e arroz suficientes para dar de comer aos cinco filhos e à mulher. Quem tinha dinheiro de sobra era que precisava de óculos, e quem tinha tempo para mandar fazer... E tempo era dinheiro, como já diria seu pai. Seu pai... Agora velho e ranzinza, mal se recordando dos nomes de seus filhos, esquecido, confuso e perdido em seu próprio mundo imaginário, que desabava lentamente sobre ele próprio.

Pronto. Havia soltado o jornal, deixando a palavra escapar-lhe, e estava novamente perdido. "Droga, aonde foi que eu parei?". Já não se lembrava mais. Não importava, de qualquer modo. O seu turno havia acabado fazia uns cinco minutos, já era hora de voltar para casa. Poderia ter ido, a essa hora, se não fosse o irresponsável do Armando, que não chegava na hora, nunca. "Homem tem que trabalhar para sustentar a família", dizia a mãe de Luiz Henrique, antes de morrer, quando ele ainda era moço, "Homem tem que ter compromisso e ter trabalho honesto para alimentar os filhos". E era isso que ele fazia, ou tentava fazer. Já o Armando... Esse era outra história. Armando era mais novo, mas era um vagabundo, por assim dizer. Não queria nada com trabalho; entre os turnos e os talões de estacionamento passava o tempo no botequim do Seu Raimundo, bebendo e conversando com mulheres de procedência duvidosa.

Dez minutos. Levantou-se da cadeira, dobrou-a, dobrou o jornal e olhou a rua. A distância distinguiu a silhueta do outro guardador. Agora que Armando tinha chegado, ele iria embora, iria para casa, iria jantar à mesa com a família e depois sentar no velho sofá mofado com uma lata de cerveja na mão e a televisão ligada na Globo. Não perdia nunca a sua novela favorita. Nunca.

Desceu a rua, parando brevemente só para acenar e cumprimentar com um "valeu" o colega de trabalho. Com um passo cansado, dirigiu-se à entrada do metrô, jornal nas mãos e a cadeirinha de baixo do braço, parando somente no meio do caminho para observar uma criança que corria atrás dos pombos da praça, fazendo-os levantar vôo. Mais um dia de trabalho havia se passado.


sábado, 4 de setembro de 2010

Mocks.

IGCSE mocks. Ou, para aqueles que não entenderam uma palavra, simulados para as provas internacionais de certificado de educação secundária. Se existe uma coisa que ocupa o tempo de qualquer aluno de uma escola Britânica ou internacional, essa coisa são os mocks. São mais de trinta e cinco provas, desde o começo dos simulados até o final das provas oficiais, dois ou três meses de puro estresse, suor, e, para agüentar a carga... Chocolate.
Durante esse período, andei tendo idéias para poemas, mas não consegui colocar nada no papel. Ontem à noite, dia em que finalmente descansei após uma semana completa com duas ou três provas por dia, escrevi dois poeminhas bobos, aguardando a hora de jantar - o primeiro, um soneto em inglês que não saiu bom o suficiente para merecer postagem. O outro, um poema infantilizado, estilo José Paulo Paes, poeta que marcou minha infância. Peço desculpas pela falta de postagem durante esse período, mas quando conseguir voltarei a postar com a mesma frequência de antes. Semana que vem, mais provas me aguardam.


De ponto para vírgula -
O que um traçinho não faz?
Cria de um 'l' um 't';
Faz de um menos um mais.

Se de tudo assim, pequenino
Há de se fazer algo maior,
Será possível também fazer
O que é grande ficar menor?

Isso já é outra história,
Pois a vida não é assim, menino:
Adulto não se faz criança
E sapo não se faz girino.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Unrepairable Loss

Um poema (dessa vez, em inglês) que escrevi para um amigo que se mudou para a França. Não se trata de uma quase-obra literária ou algo do gênero. Serve somente como um desabafo para mim, e nada mais. Escrevi no iPod, às uma da manhã ou coisa parecida no dia depois que ele me disse que iria se mudar. Tenho consciência de que alguns dos versos estão completamente fora do ritmo, mas, de qualquer forma, aí vai...

There’s nothing like a friend
That always makes you smile,
That will cure your deepest wounds
Even if only for a while

There’s nothing like a friend
That listens to what you say
And perceives when you are joyful
Or when you’re feeling grey

There’s nothing like a friend
That never leaves you behind –
That type of friend, I tell you,
Is the hardest one to find

There’s nothing like a friend
That sees you like a person, too:
You have feelings like themselves;
There’s a lot that you’ve been through

But people come and go,
And quickly time flies by,
And when you don’t even know
It’s time to say goodbye

But that friend, that special friend
Should never go away;
You wish you could continue
To be with them every day

And when you see it’s impossible
Someone like them will come by
You feel hollow in mind and body,
You feel like sitting down to cry

You remember all the good times
That you have spent together,
You remember how you laughed,
Despite the place or weather

But whatever’s best for them
You must find wonderful too,
Although that can be very hard
As it isn’t always true

You hate to see them leave like that
And walk away, maybe never to return;
In your mind you feel sick,
In your heart there is a burn

And when time comes to part
You just don’t want to let them go
You feel as if you’d want to trap them
Deep inside your soul


sábado, 10 de julho de 2010

Perdões e Promessas Futuras

Primeiramente, gostaria de pedir desculpas a todos os seguidores e leitores do blog pelo enorme período que passei sem postar nada. Com o início das férias e a ajuda do eficientíssimo serviço de Internet da NET, acabei passando um tempo enorme sem conseguir postar.

Ontem postei “O Condor”. Mais textos anteriores estão por vir, assim como alguns mais recentes que ando escrevendo nas noites de insônia (que são tudo menos escassas). Não escrevo poesia a um tempo, mas fiz umas descrições (ou, como chamo a todos os textos sem propósito, ‘Exercícios de Escrita’) de estilo bem diferente do que costumo fazer. Irei passar uma semana na minúscula cidade de Penedo durante as férias, onde espero descansar da vida urbana e encontrar a inspiração para escrever ainda mais.

Fiquem de olhos abertos para textos novos, e divirtam-se!

Grande abraço a todos,

Amalia

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Condor

Escrito meramente como um exercício de narração, um dever de casa de português. Achei o resultado satisfatório, e por isso decidi postar.


Eles estavam vindo. Vinham por mim, vinham me salvar, voando gloriosamente pelos ares a minha procura, mirando para fora das minúsculas janelinhas do avião para a vasta quantidade de água, e o minúsculo ponto de terra, seus olhos vasculhando a imensidão. Eu tinha certeza de que iriam me resgatar.

Minha aparência era como a de um ser Neandertal: os cabelos embaraçados, sujos, sem brilho, a pele cintilando com o suor inevitável, os olhos já menos humanos e meio mortos pela experiência. Havia passado, no mínimo, uma semana naquela desgraçada ilha, e estes dias haviam sido para mim mais como milênios durante os quais a vida se arrastava inutilmente, trazendo e levando consigo absolutamente nada, senão o tempo, desapressado como um caracol se esgueirando pelo galho de uma árvore, sem destino e sem pressa. Minha alma era oca, e se não fosse um único ser, um único ser que agora deveria encontrar-se preocupado na metrópole onde morava, vagando de um lado a outro a minha espera, eu já haveria morrido. Mas, como dizem alguns, e como sabem todos, o amor faz milagres, e mantém vivos mesmo aqueles que estão prestes a morrer.

Foram penosos os dias que passei naquele aglomerado de areia em meio à imensidão azul. Bebia a água acumulada nas folhas côncavas das plantas, comia o que parecesse menos desagradável – subia em árvores para pegar frutas, que eram poucas e estranhas, e matava lebres e outros pequenos mamíferos com a ajuda de uma armadilha feita de alguns galhos e fibras de coqueiro. Todo dia, à noite, acendia uma pequena fogueira e me punha a dormir ao lado dela, após cozinhar qualquer que fosse o meu jantar sobre suas labaredas aconchegantes... Eram essas chamas que mais me faziam lembrar de casa, de minha lareira quente na frente da qual gostava de sentar a tarde...

Foi provavelmente o pior período que já havia passado, tendo que tomar banho no mar salgado, sempre correndo de volta para a segurança da areia se visse qualquer coisa na água que pudesse parecer perigoso. Acordava várias vezes durante a noite, a lança mal-feita nas mãos, caso viesse a ser atacada por alguma coisa; e eu com aquele brilho selvagem nos olhos, acendendo neles algo que antes não sabia que existia em mim, antes um ser humano comum, calmo, pacato. Minhas roupas estavam imundas e rasgadas, cobertas de areia. Foi durante esses dias que me arrependi de ter, enquanto criança, brincado de qualquer coisa aventureira, na época quando tinha a inocência e a ignorância de imaginar que viver assim seria divertido...

Estavam se aproximando. Já imaginava o avião pousando, e a equipe de resgate saindo dele, triunfante, me carregando ao interior da máquina milagrosa que me traria de volta a tudo aquilo que havia perdido... Mas ao invés disso, um som estridente soou pelos ares, e, ao olhar para cima, percebi que o que plainava nos céus não era um avião, e sim um condor, sobrevoando a ilha em busca de uma presa.



domingo, 27 de junho de 2010

Descrença Desconjunta

Está aqui um poema que foi escrito há bastante tempo. Talvez quase dois anos atrás, talvez mais... Não acho que seja um bom poema, mas de qualquer modo... Como é de meu costume, eu-lírico masculino. Também inspirado pelo romantismo.


O que pode, tão mais-que-perfeito,
Ter criado os meigos labios do sorriso teu?
Eles fazem de confusos, ponderativos
Os olhares de qualquer ateu
E alucinam esse menosprezado romeu,
Q’enquanto romântico e tolo
Ainda lembra de ti consigo
Num sonho que foi o meu.

Quando passas tão formosa,
Tão encantadora com os olhares teus,
Enches de lágrimas os d’um pobre cético
Quando estes miram sua graça,
Enquanto o coração se descompassa,
Sem lhe perceberes os espiares seus,
Que mesmo que só curiosos
Desejam muito o retorno dos teus.

E a ternura que carregas consigo,
O amor q’uinda não é meu,
Faz eu, de amante, imaginar
Quantos anos e quantas vidas
Passaram escondidas
As mãos da mãe natureza
Enquanto criavam a inspiração
Para um poeta como eu.

Trazes no rosto a candura dos anjos,
Como os pintados em quadros de museus
Mas que nunca hão de existir
Em qualquer humano lugar
Pois não haveria como neles acreditar
Se não fosse pelo seu rosto
Que os refletem e já encantam
Os olhos que mergulham nos teus.

Trazes no peito o riso mais leve
Que espelha-se no rosto teu
E curam com doces remédios,
Enquanto fazem latejar com solidão
Um negligenciado coração
Que por mais que tentes salvar
Continua melancólico, manhoso
Embrenhado em profundo breu.

Trazes em toda tua paz
A inocência dos períodos teus
Qu’encantam e aprofundam mais
O amor que quero lhe dar,
Mas a mente obriga-se a refolhar
Os sentimentos, que, ignorados por ti,
Deixam somente a desejar
O toque dos teus lábios nos meus.


quarta-feira, 23 de junho de 2010

Soldadinho

Um texto que escrevi às sete-e-algo da manhã recentemente, no carro, na ida para a escola, quando fui atingida por um súbito boom de inspiração...


A criança sentava em um banquinho de madeira, com uma espiga de milho na qual havia encaixado quatro palitos de fósforo – dois para os braços e dois para as pernas. Um quinto palitinho de fósforo servia de fusil.

- “Vá soldadinho... Lute na guerra!
E depois volte para sua terra!
Vá soldadinho... Mas como você é lindo!” – cantarolou, fazendo com que a espiga marchasse pelo parapeito da janela. Parou-a por um momento e, olhando atentamente para uma linha de formigas que passeava pelo chão da casa, pensou por um tempo. – Mãe, o que é que rima com ‘lindo’?

Cansada, exausta, como que se arrastando de perto do fogão, a jovem mulher andou até o filho, seus cabelos brancos e rugas precoces sendo ressaltadas pela suave luz que inundava a casa pela porta, que se encontrava aberta.

Sorriu um sorriso melancólico e pôs à cabeça da criança a mão leve e miúda, os dedos ressecados passando por seus cabelos. Dirigiu-se a janela e lá se debruçou.

- Com ‘lindo’... – respondeu lentamente, com um suspiro triste, - Saindo, fugindo, partindo, desconstruindo, esvaindo... – uma única lágrima escapou de seus olhos, enquanto observava a caatinga lá fora. O vento seco lhe tocava o rosto com leveza.

- E seguindo, conseguindo, adquirindo?

Silenciosamente, a mulher se voltou ao fogão, para mexer o feijão que borbulhava.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A Tulipa e o Amor-Perfeito

Está aqui um poema que escrevi em meados do ano passado, imagino. Inspirado no
romantismo, mas sujeito, como tudo que produzo, a interpretações variadas:

A flor do campo
Foi que me escapou!
E seu coração,
Foi que me abalou!

Onde estarás, moça bonita?
...Me abandonou!
Onde estarás, jovem evasiva?
...Já me escapou!

E por que fugiu de mim?
Sou teu amante!
Por que me faz miserável?
Sou só um perdido errante!

Não deixe a verde montanha,
Não corra da areia da praia!
Não vá para a caverna fria,
Não te esconda detrás da samambaia!

Responda, tulipa, querida,
Ao desabrochar do amor-perfeito!
Vem, vem até ele,
Recosta-te contra o seu peito!

Pois quando tuas pétalas se esticarem
Encostarão nas suas, vermelhas;
E fará delas teu aconchego
Como fazem da colmeia as abelhas!




domingo, 20 de junho de 2010

Utopia

Um texto bastante recente, é mais uma brincadeira do que um texto mesmo, mas achei a idéia interessante quando ela me apareceu de súbito, numa madrugada, quando já deveria ter dormido ou ao menos estar estudando para a prova do dia seguinte. Mas, quando as idéias vêm, não se deve fugir delas. Ligue o computador, ou consiga um papel e uma caneta, e escreva o que vier à cabeça. E assim, escrevi o que estava pensando, e postei-o aqui... Usei aspas ao invés de travessões por pura preguiça.

O estilo é similar (ou ao menos foi isso que me disseram, pois nunca me compararia a tanto) ao do José Saramago, que faleceu hoje de manhã, e pensei que fosse válido postar hoje como homenagem a uma das grandes mentes da literatura e da humanidade. Saramago, mesmo sabendo que agora é impossível saber se gostaria do texto ou não, espero que gostasse, se ainda estivesse vivo:


Passeava um dia pelo jardim do éden deus e procurava adão e eva. E chamou o senhor deus a adão, e disse-lhe: “Onde estás?”, pois em lugar nenhum lhe via e nem sequer o procurava, devido a uma enorme dor de cabeça que lhe atingia.

Com prontidão, adão respondeu, por detrás de uma árvore: “Aqui, meu deus, me escondo do senhor. Não consegues me ver?”.

Perplexo, o senhor respondeu: “Não o vejo, não dessa vez. Minha cabeça dói e não estou tentando.”

E foi com uma risada que adão lhe explicou: “Meu deus, não é pela sua dor que você não me vê. O Homem criou agora campos eletromagnéticos e capas de invisibilidade que impossibilitam o senhor de nos seguir. Com isso, o senhor perde teu poder de ver tudo e a todos mesmo quando estes não querem ser vistos. Podemos agora fazer o que quisermos sem a tua interferência, às escondidas. Mas não te preocupe, pois o que não precisarmos fazer em privacidade mostraremos ao senhor.”

“Mas que blasfêmia!” deus praguejou, e deu as costas a adão, e assim saiu andando.

Dias depois, ainda furioso com a mal-criação de sua obra prima, chegou a um velho de longas barbas e disse, “noé, tu e todos os da tua casa, porque tu és quem eu vi ser justo diante de mim desta geração - embora isso eu não possa provar, pois sabe-se lá o que fizestes escondido de mim quando pôde - de cada animal limpo tens de tomar a ti de sete em sete, o macho e sua fêmea...”

E então noé deixou sair-lhe uma gargalhada retumbante e respondeu, “Meu caro deus, se planejas assim fazer uma enchente tão grande que cobrirá todo o mundo, desista. Nós Humanos criamos represas indestrutíveis que nem mesmo o senhor saberá desconstruir, pelas quais nenhuma gota de água indesejada passará. Estamos agora sob o nosso controle somente. Mas não te preocupe, pois o que for aprovado por nós deixaremos ainda o senhor fazer. ”

“Mas que blasfêmia!” deus urrou, e deu as costas a noé, e assim saiu andando.

Pouco tempo depois deus ouviu um pobre homem a chorar sozinho. “Acalma-te, salomão,” ele disse, quase que num sussuro, “Esquadrinhar-te-ei, e conhecer-te-ei o coração. Examinar-te-ei e conhecer-te-ei teus pensamentos inquietantes, e verei se há em ti qualquer caminho penoso, e guiar-te-ei no caminho do tempo indefinido.”

E salomão deixou escapar de seus finos lábios um sorriso, e disse: “Sugiro a você, deus, que te retire do teu cargo, pois perdeu comigo e com todos a tua credibilidade. Choro porque acabo de conseguir desvendar um dos grandes mistérios da Humanidade e tele-transportar um ser vivo, e não porque qualquer tormento da mente ou da alma me incomode. Já não servem de mais nada tua presença em todos os lugares, pois esta lhe foi barrada; nem o teu poder interminável, o qual está sob controle; e nem mesmo a tua sabedoria sobre o que se passa no coração dos Homens. Perdeste com isso tudo que lhe fazia um deus. Vá agora e repouse, pois já não precisamos mais de você.”

E com isso, de olhos baixos e com entendimento, foi-se para sempre deus às trevas do mundo e nunca mais voltou.




sábado, 19 de junho de 2010

Impiedoso Rio


Um poema inspirado pelo romantismo, ou, mais especificamente, pela pintura "Andrômeda", de Gustave Doré, postada acima. Novamente, o eu-lírico é masculino.

A jovem no rio, tão doce, tão graciosa,
Tão serena e singela...
Agarra-se à pedra, pois é ela como a rosa:
Nasce na terra e lá deve ficar,
T
em cuidado com o homem que irá lhe arruinar.

Com as delicadas mãos se balança
E os pés tocam a superfície d’água,
Que a esfria, pois, como uma criança,
É indefesa e delicada, e a água fria
Congela os poros da pele macia.

O rio quer levá-la, levá-la pela correnteza:
Carregá-la aos confins do mar
Onde Netuno há de apreciar sua beleza
E onde a aprisionará para o resto da vida
Numa prisão de corais, sem saída.

Traz consigo essa moça os traços mais lindos
Que em humana já vi.
As faces rubras como o vinho tinto,
Os olhos castanhos como o solo
Delgados o rosto e o colo.

Cai a donzela. Caiu na torrente!
O que faço eu de mi?
Menina, menina! Segura-te, aguente!
Salto, largando pena e papel, e penso comigo:
Sou poeta, não herói; mas corre ela perigo...

Corro ao barranco, salvá-la irei,
Mas já é tarde, e se foi...
Mas por quê? Chorarei.
Chorarei o pranto mais humilde e triste
Pois a jovem mulher -- partiste!

A pena e o papel recolhidos do chão
De um pobre poeta que amou
Como um tolo de fraco coração
E deixou seu sonho escapar;
Deixou-o ser levado para o fundo do mar.



sexta-feira, 18 de junho de 2010

Sozinho

Esse é outro poema bem antigo, que lembro que fiz durante o banho - sim, escrevo (mentalmente) poemas enquanto tomo banho - e achei que valia a pena (ou quase) escrever. Um pouco diferente da maior parte dos meus outros poemas em termos de estilo e conteúdo, mas... Aí vai:

Não, já não tenho mais
Um amor que me ame demais;
Já não tenho mais nada
Tenho só a poeira da estrada
Que vou ter que seguir em paz.

É chegada a hora de partir.
Tenho que ir sem demora,
Levar meus poucos pertences embora.
Mas sinto ainda que não tenho nada
Tenho só a poeira da estrada
Que vou ter que seguir em paz.

Ando a estrada vazia,
Eu e minha sombra esguia,
Só a sombra e nada mais.
Desço a estrada, a vida para trás.
Vou deixando, dando as costas,
À casa onde não moro mais.

Agora me restam ruelas vazias
E as almas que vagam, sombrias,
Só isso; e nada mais.
Tenho só a poeira da estrada
Que vou ter que seguir em paz;
E lembranças de uma velha casa
Aonde não moro mais.