domingo, 27 de junho de 2010

Descrença Desconjunta

Está aqui um poema que foi escrito há bastante tempo. Talvez quase dois anos atrás, talvez mais... Não acho que seja um bom poema, mas de qualquer modo... Como é de meu costume, eu-lírico masculino. Também inspirado pelo romantismo.


O que pode, tão mais-que-perfeito,
Ter criado os meigos labios do sorriso teu?
Eles fazem de confusos, ponderativos
Os olhares de qualquer ateu
E alucinam esse menosprezado romeu,
Q’enquanto romântico e tolo
Ainda lembra de ti consigo
Num sonho que foi o meu.

Quando passas tão formosa,
Tão encantadora com os olhares teus,
Enches de lágrimas os d’um pobre cético
Quando estes miram sua graça,
Enquanto o coração se descompassa,
Sem lhe perceberes os espiares seus,
Que mesmo que só curiosos
Desejam muito o retorno dos teus.

E a ternura que carregas consigo,
O amor q’uinda não é meu,
Faz eu, de amante, imaginar
Quantos anos e quantas vidas
Passaram escondidas
As mãos da mãe natureza
Enquanto criavam a inspiração
Para um poeta como eu.

Trazes no rosto a candura dos anjos,
Como os pintados em quadros de museus
Mas que nunca hão de existir
Em qualquer humano lugar
Pois não haveria como neles acreditar
Se não fosse pelo seu rosto
Que os refletem e já encantam
Os olhos que mergulham nos teus.

Trazes no peito o riso mais leve
Que espelha-se no rosto teu
E curam com doces remédios,
Enquanto fazem latejar com solidão
Um negligenciado coração
Que por mais que tentes salvar
Continua melancólico, manhoso
Embrenhado em profundo breu.

Trazes em toda tua paz
A inocência dos períodos teus
Qu’encantam e aprofundam mais
O amor que quero lhe dar,
Mas a mente obriga-se a refolhar
Os sentimentos, que, ignorados por ti,
Deixam somente a desejar
O toque dos teus lábios nos meus.


quarta-feira, 23 de junho de 2010

Soldadinho

Um texto que escrevi às sete-e-algo da manhã recentemente, no carro, na ida para a escola, quando fui atingida por um súbito boom de inspiração...


A criança sentava em um banquinho de madeira, com uma espiga de milho na qual havia encaixado quatro palitos de fósforo – dois para os braços e dois para as pernas. Um quinto palitinho de fósforo servia de fusil.

- “Vá soldadinho... Lute na guerra!
E depois volte para sua terra!
Vá soldadinho... Mas como você é lindo!” – cantarolou, fazendo com que a espiga marchasse pelo parapeito da janela. Parou-a por um momento e, olhando atentamente para uma linha de formigas que passeava pelo chão da casa, pensou por um tempo. – Mãe, o que é que rima com ‘lindo’?

Cansada, exausta, como que se arrastando de perto do fogão, a jovem mulher andou até o filho, seus cabelos brancos e rugas precoces sendo ressaltadas pela suave luz que inundava a casa pela porta, que se encontrava aberta.

Sorriu um sorriso melancólico e pôs à cabeça da criança a mão leve e miúda, os dedos ressecados passando por seus cabelos. Dirigiu-se a janela e lá se debruçou.

- Com ‘lindo’... – respondeu lentamente, com um suspiro triste, - Saindo, fugindo, partindo, desconstruindo, esvaindo... – uma única lágrima escapou de seus olhos, enquanto observava a caatinga lá fora. O vento seco lhe tocava o rosto com leveza.

- E seguindo, conseguindo, adquirindo?

Silenciosamente, a mulher se voltou ao fogão, para mexer o feijão que borbulhava.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A Tulipa e o Amor-Perfeito

Está aqui um poema que escrevi em meados do ano passado, imagino. Inspirado no
romantismo, mas sujeito, como tudo que produzo, a interpretações variadas:

A flor do campo
Foi que me escapou!
E seu coração,
Foi que me abalou!

Onde estarás, moça bonita?
...Me abandonou!
Onde estarás, jovem evasiva?
...Já me escapou!

E por que fugiu de mim?
Sou teu amante!
Por que me faz miserável?
Sou só um perdido errante!

Não deixe a verde montanha,
Não corra da areia da praia!
Não vá para a caverna fria,
Não te esconda detrás da samambaia!

Responda, tulipa, querida,
Ao desabrochar do amor-perfeito!
Vem, vem até ele,
Recosta-te contra o seu peito!

Pois quando tuas pétalas se esticarem
Encostarão nas suas, vermelhas;
E fará delas teu aconchego
Como fazem da colmeia as abelhas!




domingo, 20 de junho de 2010

Utopia

Um texto bastante recente, é mais uma brincadeira do que um texto mesmo, mas achei a idéia interessante quando ela me apareceu de súbito, numa madrugada, quando já deveria ter dormido ou ao menos estar estudando para a prova do dia seguinte. Mas, quando as idéias vêm, não se deve fugir delas. Ligue o computador, ou consiga um papel e uma caneta, e escreva o que vier à cabeça. E assim, escrevi o que estava pensando, e postei-o aqui... Usei aspas ao invés de travessões por pura preguiça.

O estilo é similar (ou ao menos foi isso que me disseram, pois nunca me compararia a tanto) ao do José Saramago, que faleceu hoje de manhã, e pensei que fosse válido postar hoje como homenagem a uma das grandes mentes da literatura e da humanidade. Saramago, mesmo sabendo que agora é impossível saber se gostaria do texto ou não, espero que gostasse, se ainda estivesse vivo:


Passeava um dia pelo jardim do éden deus e procurava adão e eva. E chamou o senhor deus a adão, e disse-lhe: “Onde estás?”, pois em lugar nenhum lhe via e nem sequer o procurava, devido a uma enorme dor de cabeça que lhe atingia.

Com prontidão, adão respondeu, por detrás de uma árvore: “Aqui, meu deus, me escondo do senhor. Não consegues me ver?”.

Perplexo, o senhor respondeu: “Não o vejo, não dessa vez. Minha cabeça dói e não estou tentando.”

E foi com uma risada que adão lhe explicou: “Meu deus, não é pela sua dor que você não me vê. O Homem criou agora campos eletromagnéticos e capas de invisibilidade que impossibilitam o senhor de nos seguir. Com isso, o senhor perde teu poder de ver tudo e a todos mesmo quando estes não querem ser vistos. Podemos agora fazer o que quisermos sem a tua interferência, às escondidas. Mas não te preocupe, pois o que não precisarmos fazer em privacidade mostraremos ao senhor.”

“Mas que blasfêmia!” deus praguejou, e deu as costas a adão, e assim saiu andando.

Dias depois, ainda furioso com a mal-criação de sua obra prima, chegou a um velho de longas barbas e disse, “noé, tu e todos os da tua casa, porque tu és quem eu vi ser justo diante de mim desta geração - embora isso eu não possa provar, pois sabe-se lá o que fizestes escondido de mim quando pôde - de cada animal limpo tens de tomar a ti de sete em sete, o macho e sua fêmea...”

E então noé deixou sair-lhe uma gargalhada retumbante e respondeu, “Meu caro deus, se planejas assim fazer uma enchente tão grande que cobrirá todo o mundo, desista. Nós Humanos criamos represas indestrutíveis que nem mesmo o senhor saberá desconstruir, pelas quais nenhuma gota de água indesejada passará. Estamos agora sob o nosso controle somente. Mas não te preocupe, pois o que for aprovado por nós deixaremos ainda o senhor fazer. ”

“Mas que blasfêmia!” deus urrou, e deu as costas a noé, e assim saiu andando.

Pouco tempo depois deus ouviu um pobre homem a chorar sozinho. “Acalma-te, salomão,” ele disse, quase que num sussuro, “Esquadrinhar-te-ei, e conhecer-te-ei o coração. Examinar-te-ei e conhecer-te-ei teus pensamentos inquietantes, e verei se há em ti qualquer caminho penoso, e guiar-te-ei no caminho do tempo indefinido.”

E salomão deixou escapar de seus finos lábios um sorriso, e disse: “Sugiro a você, deus, que te retire do teu cargo, pois perdeu comigo e com todos a tua credibilidade. Choro porque acabo de conseguir desvendar um dos grandes mistérios da Humanidade e tele-transportar um ser vivo, e não porque qualquer tormento da mente ou da alma me incomode. Já não servem de mais nada tua presença em todos os lugares, pois esta lhe foi barrada; nem o teu poder interminável, o qual está sob controle; e nem mesmo a tua sabedoria sobre o que se passa no coração dos Homens. Perdeste com isso tudo que lhe fazia um deus. Vá agora e repouse, pois já não precisamos mais de você.”

E com isso, de olhos baixos e com entendimento, foi-se para sempre deus às trevas do mundo e nunca mais voltou.




sábado, 19 de junho de 2010

Impiedoso Rio


Um poema inspirado pelo romantismo, ou, mais especificamente, pela pintura "Andrômeda", de Gustave Doré, postada acima. Novamente, o eu-lírico é masculino.

A jovem no rio, tão doce, tão graciosa,
Tão serena e singela...
Agarra-se à pedra, pois é ela como a rosa:
Nasce na terra e lá deve ficar,
T
em cuidado com o homem que irá lhe arruinar.

Com as delicadas mãos se balança
E os pés tocam a superfície d’água,
Que a esfria, pois, como uma criança,
É indefesa e delicada, e a água fria
Congela os poros da pele macia.

O rio quer levá-la, levá-la pela correnteza:
Carregá-la aos confins do mar
Onde Netuno há de apreciar sua beleza
E onde a aprisionará para o resto da vida
Numa prisão de corais, sem saída.

Traz consigo essa moça os traços mais lindos
Que em humana já vi.
As faces rubras como o vinho tinto,
Os olhos castanhos como o solo
Delgados o rosto e o colo.

Cai a donzela. Caiu na torrente!
O que faço eu de mi?
Menina, menina! Segura-te, aguente!
Salto, largando pena e papel, e penso comigo:
Sou poeta, não herói; mas corre ela perigo...

Corro ao barranco, salvá-la irei,
Mas já é tarde, e se foi...
Mas por quê? Chorarei.
Chorarei o pranto mais humilde e triste
Pois a jovem mulher -- partiste!

A pena e o papel recolhidos do chão
De um pobre poeta que amou
Como um tolo de fraco coração
E deixou seu sonho escapar;
Deixou-o ser levado para o fundo do mar.



sexta-feira, 18 de junho de 2010

Sozinho

Esse é outro poema bem antigo, que lembro que fiz durante o banho - sim, escrevo (mentalmente) poemas enquanto tomo banho - e achei que valia a pena (ou quase) escrever. Um pouco diferente da maior parte dos meus outros poemas em termos de estilo e conteúdo, mas... Aí vai:

Não, já não tenho mais
Um amor que me ame demais;
Já não tenho mais nada
Tenho só a poeira da estrada
Que vou ter que seguir em paz.

É chegada a hora de partir.
Tenho que ir sem demora,
Levar meus poucos pertences embora.
Mas sinto ainda que não tenho nada
Tenho só a poeira da estrada
Que vou ter que seguir em paz.

Ando a estrada vazia,
Eu e minha sombra esguia,
Só a sombra e nada mais.
Desço a estrada, a vida para trás.
Vou deixando, dando as costas,
À casa onde não moro mais.

Agora me restam ruelas vazias
E as almas que vagam, sombrias,
Só isso; e nada mais.
Tenho só a poeira da estrada
Que vou ter que seguir em paz;
E lembranças de uma velha casa
Aonde não moro mais.




quinta-feira, 17 de junho de 2010

Introdução

Difícil é decidir como começar... Bem, primeiro, acho que seria útil me apresentar.

Meu nome é Amalia Bastos, sou uma carioca bilíngüe de dezessete anos. Pode-se dizer que sou uma adolescente atípica. Nasci em 18 de Fevereiro. Sou aquariana, embora já tenha me convencido há tempos de que essas bobagens de signos são nada mais do que uma forma de astrólogos fazerem algum lucro com as suas invenções fúteis - mapas astrais, horóscopos, etc. Sou também uma atéia convicta. Para mim, não existe, nem nunca existiu, e nem nunca existirá algo divino, de forma nenhuma. Meu ateísmo é uma decisão que tomei sozinha. Minha mãe é agnóstica, e meu pai judeu. Eu sou meramente uma cética que se baseia em fatos científicos e palpáveis para qualquer tipo de decisão na vida, e nada mais.

Sou uma fã de poesia e literatura em geral, desde que o que eu esteja lendo seja de boa qualidade. Qualquer coisa escrita para o público adolescente simplesmente não me chama a atenção, e apenas me repele. Aliás, nada, em forma nenhuma, que seja feito para o público adolescente jamais me chamou a atenção até hoje. Nesse blog você não encontrará nada relacionado a vampiros cintilantes, astros adolescentes da disney ou qualquer coisa do gênero. Se é isso que você está procurando, não sugiro este blog.

Meus livros favoritos incluem a trilogia "O Senhor dos Anéis" ou, melhor, 'The Lord of the Rings' de J.R.R. Tolkien (nos quais se baseiam também meus filmes favoritos), 'The Sound and the Fury' ("O Som e a Fúria") de William Faulkner e 'Catcher in the Rye', ou "Apanhador no Campo de Centeio", do J.D. Salinger. Meus poetas favoritos incluem Edgar Allan Poe, J.R.R. Tolkien e Manuel Bandeira.

Tenho um grande amor por animais (com a exceção dos malditos artrópodes) e pretendo me formar em biologia no futuro, se possível na Inglaterra, e me tornar uma comportamentalista (bióloga especializada em comportamento animal). Tenho dois lindos golden retrievers, Abott, de oito anos, e Avalon, de oito meses, uma tartaruga tigre-d'água e vários pássaros.

Mas, além de todas essas características estranhíssimas que possuo, sou também relativamente normal: adoro usar vestidos, gosto de cinema, filmes, música (especialmente MPB e jazz), e sou extremamente crítica de absolutamente tudo. E, como qualquer pessoa, posso às vezes ser hipócrita. Mas, ao contrário de muitas, não me importo em admití-lo.

Aqui pretendo postar textos que produzi, reflexões, idéias e, basicamente, qualquer coisa que me vier à cabeça. Todos são bem-vindos a comentar. Tudo que peço é que não usem nada que eu produza de nenhuma forma sem minha autorização, muito embora isso seja um blog aberto na internet onde, sabemos, existem milhares de plagiadores.

Por um tempo, estarei postando alguns de meus textos e poemas passados, até que tenha colocado tudo que quero postar, e depois começarei a colocar os mais recentes.

Espero que gostem,

Amalia